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Após ser perguntada se fazia faxina, professora diz ‘não, faço mestrado’ e caso viraliza na internet

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‘A questão é o estigma. Ela só me perguntou se eu fazia faxina por causa da minha pele’, disse Luana Tolentino. O texto já teve mais de 2 mil compartilhamentos no Facebook.
Aquestão é esse olhar da sociedade sobre nós, mulheres negras, como se a gente pudesse ocupar apenas estes espaços. É uma coisa corriqueira”, disse Luana Tolentino, professora de história há nove anos, que foi abordada na rua, em Belo Horizonte, por uma senhora que perguntou se ela fazia faxina.
“Altiva e segura, respondi, ‘não. Faço mestrado. Sou professora’, escreveu Luana em seu perfil no Facebook. O texto já foi compartilhado mais de duas mil vezes na internet.
“Eu penso sempre no quanto isso é sério. No quanto você tem responsabilidade na palavra e no discurso. No quanto a sociedade é excludente, preconceituosa”, falou.
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Texto escrito por professora sobre pergunta preconceituosa viraliza na internet. (Foto: Reprodução/Facebook)

A professora de 33 anos disse que não se sentiu ofendida com a pergunta, já que trabalhou como faxineira para ajudar a mãe a comprar comida e a pagar o primeiro período da faculdade. “A questão não é essa. A questão é o estigma. Ela só me perguntou se eu fazia faxina por causa da minha pele. Eu já escrevo sobre a questão racial, o feminismo, as práticas pedagógicas no meu perfil. Eu decidi contar esta história porque ela não diz respeito apenas a mim, mas diz respeito a nossa sociedade”, contou.
Luana, que faz mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), chegou a ser agraciada em 2016 com a Medalha da Inconfidência, dada pelo governador sempre no dia de Tiradentes, 21 de abril. “Quando cheguei lá, me perguntaram se era convidada de alguém. Não imaginavam que eu seria uma das homenageadas”, disse.
Quanto a mulher que a abordou na rua, ela continuou parada no mesmo lugar por alguns momentos, segundo Luana. “Ao mesmo tempo que ela se aproximou ao perguntar sobre a faxina, ela se afastou ao ouvir que eu era professora. Como ela não disse nada depois, eu fui embora. Até me virei e ela ainda estava lá, como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir”.

Leia o texto de Luana Tolentino na íntegra

Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina.
Altiva e segura, respondi:
– Não. Faço mestrado. Sou professora.
Da boca dela não ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa.
Não me senti ofendida com a pergunta. Durante uma passagem da minha vida arrumei casas, lavei banheiros e limpei quintais. Foi com o dinheiro que recebia que por diversas vezes ajudei minha mãe a comprar comida e consegui pagar o primeiro período da faculdade.
O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura.
No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel.
É esse olhar que fez com que o porteiro perguntasse no meu primeiro dia de trabalho se eu estava procurando vaga para serviços gerais. É essa mentalidade que levou um porteiro a perguntar se eu era a faxineira de uma amiga que fui visitar. É essa construção racista que induziu uma recepcionista da cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, a questionar se fui convidada por alguém, quando na verdade, eu era uma das homenageadas.
Não importa os caminhos que a vida me leve, os espaços que eu transite, os títulos que eu venha a ter, os prêmios que eu receba. Perguntas como a feita pela senhora que nem sequer sei o nome em algum momento ecoarão nos meus ouvidos. É o que nos lembra o grande Mestre Milton Santos:
“Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre, (…) não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico.”
É o que também afirma Ângela Davis. E ela vai além. Segundo a intelectual negra norte-americana, sempre haverá alguém para nos chamar de “macaca/o”. Desde a tenra idade os brancos sabem que nenhum outro xingamento fere de maneira tão profunda a nossa alma e a nossa dignidade.
O racismo é uma chaga da humanidade. Dificilmente as manifestações racistas serão extirpadas por completo. Em função disso, Ângela Davis nos encoraja a concentrar todos os nossos esforços no combate ao racismo institucional.
É o racismo institucional que cria mecanismos para a construção de imagens que nos depreciam e inferiorizam.
É ele que empurra a população negra para a pobreza e para a miséria. No Brasil, “a pobreza tem cor. A pobreza é negra.”
É o racismo institucional que impede que os crimes de racismo sejam punidos.
É ele também que impõe à população negra os maiores índices de analfabetismo e evasão escolar.
É o racismo institucional que “autoriza” a polícia a executar jovens negros com tiros de fuzil na cabeça, na nuca e nas costas.
É o racismo institucional que faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas da mortalidade materna.
É o racismo institucional que alija os negros dos espaços de poder.
O racismo institucional é o nosso maior inimigo. É contra ele que devemos lutar.
A recente aprovação da política de cotas na UNICAMP e na USP evidencia que estamos no caminho certo.

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Reportagem de: Thais Pimentel
Artigo Original : G1
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